Menino Jesus da Cartolinha

Menino Jesus da Cartolinha - Concatedral de Miranda do Douro

Menino Jesus da Cartolinha – Concatedral de Miranda do Douro

O MENINO JESUS DA CARTOLINHA ©

Desde o final do século XVI, passando por todo o século XVII e até ao meio do século XVIII, toda a Europa viveu tempos difíceis de fome, peste e guerra.
Durante este período e, nestas condições, nasceram novas devoções e criaram-se novos mitos em volta de figuras e imagens de santos e até de pessoas por seus feitos valorosos.
O povo do Nordeste Transmontano e da região de Miranda do Douro não ficou alheio a estas manifestações religiosas. É preciso não esquecer que Miranda do Douro e seu termo viveram tempos difíceis durante todo o século XVII, mas mais acentuadamente entre 1640 e 1669 com a Guerra da Independência e depois no princípio do século XVIII entre 1706 e 1713 com a Guerra da Sucessão com a vizinha Espanha.
Estes tempos terríveis de fome, peste e guerra trouxeram o terror e com ele a projecção para o infinito em busca de auxílio que não se encontrava no mundo nem nas suas estruturas sociais, económicas ou militares.
Os testemunhos que encontramos em documentos escritos deste período dão-nos conta desses tempos difíceis que viveu a população do Planalto Mirandês. Lembramos só a peste de 1631 que vitimou um terço da população da cidade e região.
Mas durante o período de 1640 a 1668 não consta que a cidade de Miranda alguma vez fosse atacada pelo inimigo. Temos notícias de escaramuças junto à fronteira, mas a cidade nunca foi cercada pelo inimigo. Não tem fundamento a lenda que fala do Menino Jesus defendendo Miranda na Guerra da Independência.
A lenda vem do período de 1706 a 1713. Foi neste tempo, mais concretamente, em 1711 que o exército castelhano invadiu Miranda e a assolou durante vários meses.
Quando a cidade se encontrava invadida, saqueada e vexada pelos castelhanos e sem esperança de remissão, esperando o reforço das nossas tropas que nunca mais chegava, aparece nas muralhas um menino vestido de fidalgo cavaleiro chamando os mirandeses e gritando às armas contra os invasores. De todas as casas sai gente armada de foices, gadanhas, espingardas e varapaus para escorraçar os espanhóis.
A frente dos mirandeses o menino ora aparecia ora desaparecia, até que no fim da luta e depois da cidade libertada o menino não mais se viu.Procuraram-no por toda a parte, mas em vão. O pequeno “General” tinha desaparecido. Os mirandeses consideraram que se tratava de um autêntico milagre esta vitória contra os espanhóis e que foi sem dúvida um favor muito grande do Menino Jesus.
Mandaram então esculpir uma imagem do Menino Jesus vestido de fidalgo cavaleiro, à maneira do tempo e colocaram-no num altar da catedral.
Outra versão da lenda diz que o Menino Jesus foi encontrado na rua, chorando e alguém o recolheu na catedral.
Tem havido quem atribua esta lenda a um caso possível de amor frustrado de religiosa ou fidalga, filha segunda de nobre que vestia o Menino Jesus como idealizava o seu noivo: assim mesmo um fidalgo cavaleiro.
Mas em Miranda nunca existiu qualquer convento de congregação feminina. Havia, sim, alguns nobres de pouca importância social e económica e havia também militares de alta patente. É um caso possível como outros que existiram.
Mas analisando a escultura e atendendo aos poucos documentos que temos, somos levados a concluir que se trata de uma imagem mandada esculpirpelos mirandeses ou pelo próprio Cabido da Catedral em época de aflição. A imagem tem as características de uma escultura dos finais do século XVII ou mesmo do principio do século XVIII.
O Menino Jesus não aparece como um menino bebé ou mesmo adolescente, mas sim como um jovem já dos seus dezoito ou vinte anos. Aparece vestido de fidalgo Cavaleiro o que nos leva a afirmar que se trata de um Menino General protector da cidade de Miranda e suas gentes em tempos de guerra.
No tempo em que a imagem foi esculpida já tinha aparecido o célebre caso do Menino de Milhão que repica os sinos e aclama o Rei D. João IV, no dia primeiro de Dezembro de 1640.
Não era difícil para a gente do Planalto Mirandês ou para a gente do Nordeste Transmontano acreditar em um milagre, nestes tempos difíceis de fome, peste e guerra, e entre uma população fortemente enraizada nas manifestações e crenças religiosas.
Por isso não nos parece nada descabido que fosse o cabido ou qualquer pessoa de aceitação na cidade de Miranda que, a partir de um facto de guerra fomenta a devoção ao Menino Jesus “da Cartolinha”.
Nos inventários da Fábrica da Sé Catedral de Miranda do Douro de 1722 e 1729 consta o arrolamento de todos os fatinhos que já naquele tempo vestia o Menino Cavaleiro. Eram fatos de cavaleiro, realmente e tinha-os de todas as cores da liturgia sagrada: o vermelho, o roxo, o verde, o branco, conforme os ciclos litúrgicos.
Esta imagem do Menino Jesus da Cartolinha consta, nos mesmos inventários, como uma imagem do Menino Jesus de Pé que serve para a procissão do Ano Novo e do Dia de Reis.
A imagem do Menino Jesus não tinha cartolinha, no século XVIII.
Temos que ver que a cartola aparece com a Revolução Industrial e usam-na pela primeira vez os Gentil-men ingleses, capitalistas e altos senhores burgueses, desde a primeira metade do século XIX.
Alguém se lembrou de colocar uma cartola na cabeça do Menino Jesus da Catedral de Miranda do Douro ou nos finais do século XIX ou nos princípios deste século XX. A imagem do Menino Jesus da Cartolinha aparece ainda no princípio deste século com um chapéu de palha à maneira dos meninos de Murillo ou de Ribera.
A cartolinha não foi mais que um acto de boa vontade de alguém que se lembrou de distinguir o Menino Jesus com este trajo de fidalguia.
A cartolinha é portanto um acrescento extemporâneo como a capa de honras e outros elementos que foram acrescentando à imagem. A devoção popular tudo faz. Quanta gente não tem oferecido ao Santo Menino meias, sapatos, camisinhas, chapéus e outras peças de vestuário. É o sinal do carinho que as pessoas mostram ao Menino Jesus da Catedral.
Muitas e muitas pessoas vêm de propósito a Miranda do Douro para ver e rezar ao Menino Jesus da Cartolinha.
Os nossos vizinhos espanhóis também têm devoção ao Menino Jesus da Cartolinha. Há ainda pouco tempo o abade de uma das confrarias de Zamora nos veio pedir a medida da imagem para fazer “un capuchon” e o respectivo fato com a intenção que o Menino Jesus ficasse adstrito a essa Confraria.
Imagem e mito de ontem, devoção de sempre, este Menino General, cavaleiro protector da cidade e das populações do Planalto Mirandês é a principal atracção dos visitantes da catedral. Chegam e não lhes interessa o grandioso retábulo do altar mor. Vão directos ao altar do Santo Menino para contemplar a sua imagem, ver os fatinhos e brincar em sentimental afecto de devoção e carinho.
A festa do Menino Jesus da Cartolinha celebra-se no dia de Reis, Domingo antes ou depois do dia 6 de Janeiro. Como é padroeiro das crianças o andor é transportado aos ombros por quatro meninos que se revezam ao longo da procissão.
Com a restauração da Festa do Menino Jesus da Cartolinha voltou-se assim, louvavelmente aos tempos dos princípios do século XVIII e restaurou–se a devoção da cidade de Miranda do Douro ao seu Menino que é também Menino Universal.

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Mourinho, António Rodrigues in “A CATEDRAL DE MIRANDA DO DOURO”